quinta-feira, 10 de maio de 2007

I Capitulo

I

- (Irmão, quantas vezes brincámos junto ao lago do Parque de Monserrate? Chapinhávamos na água enlameada e corríamos atrás dos patos assustados. Fugíamos um do outro pelo meio da floresta e corríamos, corríamos sem parar por entre as arvores. Crescemos. Entramos na juventude e nada mais nos interessava do que continuarmos a correr pelo meio da floresta. Depois tombava-mos, ofegantes, na relva, com as sombras das nuvens a arrastarem-se pelas nossas caras).
- Em que pensas? – Pergunta a Nisa, enquanto observa as expressões de alegria no rosto do Ivo.
- No meu irmão. Nas vezes que brincávamos neste parque e acabávamos deitados na relva, sem dizer nada, como nós o fazemos agora.
O Ivo tem 21 anos. O seu cabelo preto, como um universo apagado, contrasta com os seus enormes olhos azuis, que demonstram uma tristeza eminente. As orelhas são pequenas tal como o seu nariz, e a boca entreaberta revela caninos aguçados como de uma fera voraz.
- Se o Salvador ainda fosse vivo faria hoje 20 anos. Ele sempre me dizia que queria fazer algo importante ao tornar-se adulto. É uma idade especial.
- Sabes se há alguma coisa que ele quisesse fazer?
- Haviam algumas coisas…-diz o Ivo sentando-se de pernas cruzadas - Para alem da sua típica utopia em querer tornar o mundo melhor, - o Ivo esboça um sorriso – ele queria ver o por do sol com os amigos.
Após uns breves segundos Nisa ergue-se do campo relvado e puxa pela mão do Ivo.
- Vamos.
- Vamos onde?
- Jantar e depois vamos ver o por do sol em honra do Salvador. Que achas?
- Acho que o meu irmão gostaria muito.

O jantar foi invulgarmente silencioso. O restaurante chinês tinha poucos clientes e o Ivo optou por tentar não pensar nem falar em nada que evidenciasse alguma fraqueza. Muitos sentimentos corriam-lhe na pele: as recordações do irmão e a forma como eram unidos e felizes, as brincadeiras, as cumplicidades, os desabafos, as lágrimas partilhadas, as dúvidas, os desejos e, por fim, o eco da voz do médico dizendo-lhe que o destino quis que ele morresse.
O sabor uniforme e meloso do pato com ananás deixa-o nauseado.
- Tenho que ir à casa de banho.
- Já percebi que não estas bem Ivo. Eu vou pagar e espero por ti lá fora; precisas apanhar ar fresco…
O Ivo levanta-se e dirige-se para a casa de banho. Abre a torneira do lavatório e molha a cara com água fria tentando afastar e lavar os sentimentos negativos que lhe surgem. Uma voz vinda da sua dianteira quebra o carpido da água.
- Eu estou aqui.
Com um enorme susto, o Ivo salta para trás. Sente o coração na garganta e a intensidade deste a bater provoca-lhe dores agudas nas têmporas. O tempo parecia ter sustido a respiração enquanto ele olhava em frente, com as pequenas gotas de água projectadas, a deslocarem-se no ar, refractando a luz. Em frente do Ivo, no espelho, reside o rosto albino do seu irmão que de imediato desaparece dando lugar às imagens sobrepostas da casa de banho e do Ivo com a imagem de um mundo ressequido e estagnado. Nisto, o espelho estala em todo o seu comprimento reflectindo apenas o que o mundo pálpavel lhe fornece e a imagem, agora desassociada, do Ivo.
Aqui fica a continuação da história com um rumo que decerto
vos tornará mais fácil imaginar e engendrar um enredo mais conciso e estruturado
para a continuação do primeiro capítulo. Espero opiniões, criticas construtivas,
ideias, descrições de lugares, personagens e tudo o que possam imaginar para me
ajudar na continuação do e-book de todos nós. Não esqueçam também do e-mail para
onde podem enviar ideias que não queiram tornar publicas nos comentários às
"postagens".

Obrigado pela contribuição.