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Os estalidos da velha carroçaria do Fiat descapotável não interferiam de todo com as encantadoras paisagens de Sintra. O Ivo observa com atenção a todos os pormenores: as casas e os canteiros de Fontanelas, os pequenos quadrados de palha espalhados aleatoriamente nas extensas searas e campos, as andorinhas a esvoaçar como pedaços de cartão recortado à deriva… O cheiro a mar já se adivinha no Arneiro dos Marinheiros e, ao fechar os olhos, e ao sentir o vento salgado agitar o cabelo, envolver-lhe a face e preencher os pulmões, Ivo sente uma liberdade inexplicável que o arrepia até à espinha. Abre os olhos e o Sol, de um tom alaranjado, deslumbra-o. Fechando novamente os olhos e sente o calor do Sol acariciar-lhe a face como a mãe dos irmãos fazia quando chegava a hora de adormecer. Ela aconchegava a roupa da cama aos dois filhos, dava-lhes festinhas, com as suas suaves mãos, nas faces rechonchudas e coradas e um beijo de boa noite.
- Chegámos. – Nisa para o carro no estacionamento vazio, - Estás com melhor cara Ivo. – Sorrindo, puxa do travão de mão e prepara-se para sair do carro.
Junto ao pequeno muro vislumbram a praia. A maré baixa revelou as rochas alisadas pela areia e uma neblina pouco densa percorre a praia parecendo querer escalar os rochedos que delimitam e se estendem ao longo da praia.
Segurando as mãos de Nisa, o Ivo olha-lhe nos olhos: - Obrigado. Tens-me apoiado sempre e sem ti talvez não tivesse força para suportar esta perda. – Conforme a Nisa se prepara para falar o Ivo interrompe-a. – Sim, eu sei o que vais dizer. Eu agradeço-te por sentir necessidade de o fazer, sei que fazes isto por mim sem esperar um agradecimento.
- Os amigos são para isso mesmo, para os momentos bons e para os maus.
Os dois descem a rampa até a areia e seguem em direcção a uma rocha onde se sentam a observar a brilhante ondulação do mar e um horizonte pintado de cores quentes e alegres.
Ao pôr-se, o Sol espalha os seus últimos raios de luz laranja, rosa, e amarelo pelo horizonte, e já quase fora do alcance da vista, a suave luz começa a enfraquecer, vencida pelo frio da brisa marítima. Agora o céu azul e amarelo contrasta com a escurecida ondulação do mar, como uma luta entre dois reinos.
- (Salvador. Tu estas aqui.) – pensa o Ivo colocando a mão no peito.
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O Ivo já chega tarde a casa e limita-se a cumprimentar a mãe, lavar os dentes e a recolher-se no quarto. Ao entrar ele observa-o como se não o conhecesse pois tinha-o alterado de forma a não se confrontar com os sentimentos negativos em relação à perda do irmão, com quem dividia o espaço. À entrada do quarto volta-se para a direita e olha para o beliche. A cama de cima está desfeita pois o Ivo acordou subitamente na última noite e só pensou em sair de casa depois do sonho que teve. Voltando-se desta vez para a esquerda, atravessa o centro do quarto passando pelo tapete redondo, azul-escuro chegando à janela. Fecha o estore. Um espelho pouco mais baixo que ele está à esquerda da janela e reflecte o tapete azul com três “pufs” que o circundam, e, mais adiante, o beliche e a cómoda que está encostada à parede da porta de entrada. À direita da janela, a secretária sustenta os pesados livros de leitura recomendada pelas disciplinas do seu curso universitário e um portátil aberto. Na estante, ao lado da secretária, estão expostos alguns objectos: uma taça de patinagem, um carro vermelho telecomandado, um globo terrestre de vidro fosco assente numa base de madeira talhada, livros antigos, et cetera.
Sentando-se no centro do quarto, ele pensa na mãe e no sofrimento que ela tem passado ao longo da vida. Um marido ausente, que era um viciado no trabalho, acabando por desprezar a família trocando-a por um projecto numa empresa de engenharia na Rússia. Um dia em conversa sobre o que levou o pai a sair da vida deles, a mãe falou do projecto, envolvida em expressões de orgulho pelo sucesso do seu marido, e angustia pelo o que veio a acontecer: “o projecto é muito importante e secreto!” – dizia ela. Com o abandono, acabada de dar à luz o seu segundo filho, ela ficou de rastos. Felizmente nunca lhes faltou nada excepto um pai, e, mais tarde, uma maior tragédia se abate de uma forma cruel sobre esta família: a morte de um dos filhos. Ela nunca mais seria a mesma. Os olhos perderam o brilhozinho azul e a cara alegre; tornou-se pálida e sem expressão.
Nos aniversários do Salvador ela cinge-se a comprimidos para dormir de modo a não pensar muito no que lhe faz sofrer.
O cansaço começando a pesar nos olhos do Ivo faz com que ele se dispa para ir dormir. Nu, em frente ao espelho do quarto, pergunta-se qual a sua função no mundo. Sem um pai que o apoiasse durante a sua evolução, aprendeu a defender-se por si próprio. Auto-construiu-se, mas esqueceu os seus objectivos. O irmão, Salvador, tinha uma grande esperança: mudar o mundo.
- (Sempre que me lembro disto sorrio.) – pensa o Ivo, - (talvez seja uma ideia que me agrade. Talvez seja isso mesmo que eu quero. Quero ser útil. Quero lutar por um mundo melhor.).
Já com o pijama vestido, acende uma vela branca e pousa-a na cómoda antes de se deitar.
- (Dizias que uma luz na escuridão orienta os sentimentos das pessoas, mano. Esta vela é para guiar-te para aqui, o teu lar). E com este pensamento adormece.
Ao adormecer passam-lhe diversos episódios do passado pela cabeça. O pai que abandonou a família a troco dos negócios, não havia um mês que o salvador tinha nascido; a mãe a levá-los para brincar no “Parque da Liberdade” quando ainda eram crianças; os exames médicos ao Salvador devido à sua invulgar inteligência e à dificuldade em acordar do sono; o ataque que o salvador teve na escola que o levou a ser internado no hospital e, por fim, os médicos a tentarem reanimá-lo depois de outro ataque mais efusivo, enquanto o Ivo assistia, impotente, do outro lado de um enorme vidro.O Ivo abre os olhos com o consciente a despertar. Mas não acordou. Ele está no mundo onde tem passado as últimas noites e que viu no espelho do restaurante. Reconheceu de imediato a paisagem como sendo aquela que assistiu no espelho e pensou procurar o irmão, mas deteve o olhar numa árvore que não estava lá no dia anterior. Um enorme plátano no centro de uma planície, com as folhagens verdes e o lenho ressequido a revestir o tronco. O Ivo tocou na árvore e sentiu, com a ponta dos dedos, a textura rugosa e as falhas no revestimento e nós da árvore. Arrancou um pedaço da casca e observou-o: o recorte irregular apresenta fissuras como os poros da pele de um animal e é constituído de varias camadas; por dentro, o pedaço de casca é mais rugoso e as fissuras transversais mais visíveis. O Ivo afasta-se três passos da árvore e observa-a por inteiro, fecha os olhos, agarrando o pedaço da árvore na mão, com força, e sente o cheiro que ela emana, é cheiro de uma natureza que aquele mundo desconhecia. Num gemido de misto de frio e quente o Ivo acorda no seu beliche com a mão direita dormente. Levanta-se num pulo, ainda zonzo, e à luz da vela abre a mão. Ele trouxera consigo o pedaço de casca do plátano. Aqueles sonhos não são apenas sonhos, são reais.