quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Transição para o Segundo Capítulo

Como podem reparar a aparência do nosso blog mudou um bocadinho; na intenção de ser menos cansativo para o leitor, as cores foram alteradas e a grafia e aspecto foram optimizados para chamarem mais a atenção do visitante. As musicas e os vídeos são os adequados à interiorização dos sentimentos e conceitos do que aqui se vai desenvolvendo e que constituem o meu mais intimo ser, fazendo parte da construção deste mundo que ganha alicerces cada vez mais robustos, e que se começa a elevar, e a descobrir o Céu.
Os nomes para o e-book estão agora seleccionados e aproxima-se a hora da continuação desta história, mas isso não acontecerá antes do fim deste mês em que o Ritchie me entregará os primeiros art-works que irão acompanhar os próximos textos e evolução da historia.

Os nomes seleccionados são:
Abiel Dimas*
Sabina Dimas*
João Guilherme
Laura Alves
Pedro Sousa


Um grande abraço a todos os que me acompanham.

* Estes personagens são irmãos e de origem Africana.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Fim do Capitulo I

Chegamos ao fim do primeiro capítulo do nosso e-book e quero desde já agradecer aos assíduos e pacientes comentadores: Ricardo, Laura, João Luis, Joaquim, Gaspar, Cátia e Andreia. Aos que mencionei e que não têm comentado, sei que acompanham o texto, e que a seu tempo comentarão.
Ao início deste segundo capitulo haverão alterações, ou digamos antes, desenvolvimentos, tanto ao nível do blog como de comentários e postagens. Sinto que por algum motivo alguns comentadores se retêm no que escrevem: Não o façam. Escrevam o que quiserem, e não só, ousem escrever sequelas do que escrevo, frases, descrições de espaços ou personagens, tudo com o que possam contribuir servirá para amplificar a riqueza deste livro. E, se acham que não têm capacidades literárias para escrever do modo como vos disse, criem imagens, por exemplo. O Ritchie vai começar um pequeno “art-work”, baseando-se nas descrições das personagens, desenhando-lhes os corpos e as roupas, e gostaria que houvessem contribuições desse tipo. Tudo é aceite, e feita a selecção, é publicado na altura correcta do livro ou em postagens especificas para demonstrar o desenvolvimento dos contribuidores deste projecto.

Peço agora uma contribuição:
Preciso de cinco nomes, três rapazes e duas raparigas. Cada um dos comentadores deverá indicar os cinco nomes e, preferencialmente, sobrenomes. Podem haver sobrenomes iguais em apenas duas das personagens (ou seja só podem haver dois irmãos). Um dos rapazes é obrigatoriamente negro, o que pode condicionar, ou não, consoante a nacionalidade, o nome desse rapaz. Depois de todos os nomes comentados (podem comentar igual ao que outros já comentaram), publicarei, antes de iniciar o segundo capitulo, os nomes escolhidos para a continuação do livro.

Obrigado, mais uma vez a todos, e espero que estejam a aproveitar bem o calor do verão e fresco da brisa do mar.

domingo, 5 de agosto de 2007

*
Os estalidos da velha carroçaria do Fiat descapotável não interferiam de todo com as encantadoras paisagens de Sintra. O Ivo observa com atenção a todos os pormenores: as casas e os canteiros de Fontanelas, os pequenos quadrados de palha espalhados aleatoriamente nas extensas searas e campos, as andorinhas a esvoaçar como pedaços de cartão recortado à deriva… O cheiro a mar já se adivinha no Arneiro dos Marinheiros e, ao fechar os olhos, e ao sentir o vento salgado agitar o cabelo, envolver-lhe a face e preencher os pulmões, Ivo sente uma liberdade inexplicável que o arrepia até à espinha. Abre os olhos e o Sol, de um tom alaranjado, deslumbra-o. Fechando novamente os olhos e sente o calor do Sol acariciar-lhe a face como a mãe dos irmãos fazia quando chegava a hora de adormecer. Ela aconchegava a roupa da cama aos dois filhos, dava-lhes festinhas, com as suas suaves mãos, nas faces rechonchudas e coradas e um beijo de boa noite.
- Chegámos. – Nisa para o carro no estacionamento vazio, - Estás com melhor cara Ivo. – Sorrindo, puxa do travão de mão e prepara-se para sair do carro.
Junto ao pequeno muro vislumbram a praia. A maré baixa revelou as rochas alisadas pela areia e uma neblina pouco densa percorre a praia parecendo querer escalar os rochedos que delimitam e se estendem ao longo da praia.
Segurando as mãos de Nisa, o Ivo olha-lhe nos olhos: - Obrigado. Tens-me apoiado sempre e sem ti talvez não tivesse força para suportar esta perda. – Conforme a Nisa se prepara para falar o Ivo interrompe-a. – Sim, eu sei o que vais dizer. Eu agradeço-te por sentir necessidade de o fazer, sei que fazes isto por mim sem esperar um agradecimento.
- Os amigos são para isso mesmo, para os momentos bons e para os maus.
Os dois descem a rampa até a areia e seguem em direcção a uma rocha onde se sentam a observar a brilhante ondulação do mar e um horizonte pintado de cores quentes e alegres.
Ao pôr-se, o Sol espalha os seus últimos raios de luz laranja, rosa, e amarelo pelo horizonte, e já quase fora do alcance da vista, a suave luz começa a enfraquecer, vencida pelo frio da brisa marítima. Agora o céu azul e amarelo contrasta com a escurecida ondulação do mar, como uma luta entre dois reinos.
- (Salvador. Tu estas aqui.) – pensa o Ivo colocando a mão no peito.

*

O Ivo já chega tarde a casa e limita-se a cumprimentar a mãe, lavar os dentes e a recolher-se no quarto. Ao entrar ele observa-o como se não o conhecesse pois tinha-o alterado de forma a não se confrontar com os sentimentos negativos em relação à perda do irmão, com quem dividia o espaço. À entrada do quarto volta-se para a direita e olha para o beliche. A cama de cima está desfeita pois o Ivo acordou subitamente na última noite e só pensou em sair de casa depois do sonho que teve. Voltando-se desta vez para a esquerda, atravessa o centro do quarto passando pelo tapete redondo, azul-escuro chegando à janela. Fecha o estore. Um espelho pouco mais baixo que ele está à esquerda da janela e reflecte o tapete azul com três “pufs” que o circundam, e, mais adiante, o beliche e a cómoda que está encostada à parede da porta de entrada. À direita da janela, a secretária sustenta os pesados livros de leitura recomendada pelas disciplinas do seu curso universitário e um portátil aberto. Na estante, ao lado da secretária, estão expostos alguns objectos: uma taça de patinagem, um carro vermelho telecomandado, um globo terrestre de vidro fosco assente numa base de madeira talhada, livros antigos, et cetera.

Sentando-se no centro do quarto, ele pensa na mãe e no sofrimento que ela tem passado ao longo da vida. Um marido ausente, que era um viciado no trabalho, acabando por desprezar a família trocando-a por um projecto numa empresa de engenharia na Rússia. Um dia em conversa sobre o que levou o pai a sair da vida deles, a mãe falou do projecto, envolvida em expressões de orgulho pelo sucesso do seu marido, e angustia pelo o que veio a acontecer: “o projecto é muito importante e secreto!” – dizia ela. Com o abandono, acabada de dar à luz o seu segundo filho, ela ficou de rastos. Felizmente nunca lhes faltou nada excepto um pai, e, mais tarde, uma maior tragédia se abate de uma forma cruel sobre esta família: a morte de um dos filhos. Ela nunca mais seria a mesma. Os olhos perderam o brilhozinho azul e a cara alegre; tornou-se pálida e sem expressão.
Nos aniversários do Salvador ela cinge-se a comprimidos para dormir de modo a não pensar muito no que lhe faz sofrer.

O cansaço começando a pesar nos olhos do Ivo faz com que ele se dispa para ir dormir. Nu, em frente ao espelho do quarto, pergunta-se qual a sua função no mundo. Sem um pai que o apoiasse durante a sua evolução, aprendeu a defender-se por si próprio. Auto-construiu-se, mas esqueceu os seus objectivos. O irmão, Salvador, tinha uma grande esperança: mudar o mundo.
- (Sempre que me lembro disto sorrio.) – pensa o Ivo, - (talvez seja uma ideia que me agrade. Talvez seja isso mesmo que eu quero. Quero ser útil. Quero lutar por um mundo melhor.).
Já com o pijama vestido, acende uma vela branca e pousa-a na cómoda antes de se deitar.
- (Dizias que uma luz na escuridão orienta os sentimentos das pessoas, mano. Esta vela é para guiar-te para aqui, o teu lar). E com este pensamento adormece.
Ao adormecer passam-lhe diversos episódios do passado pela cabeça. O pai que abandonou a família a troco dos negócios, não havia um mês que o salvador tinha nascido; a mãe a levá-los para brincar no “Parque da Liberdade” quando ainda eram crianças; os exames médicos ao Salvador devido à sua invulgar inteligência e à dificuldade em acordar do sono; o ataque que o salvador teve na escola que o levou a ser internado no hospital e, por fim, os médicos a tentarem reanimá-lo depois de outro ataque mais efusivo, enquanto o Ivo assistia, impotente, do outro lado de um enorme vidro.O Ivo abre os olhos com o consciente a despertar. Mas não acordou. Ele está no mundo onde tem passado as últimas noites e que viu no espelho do restaurante. Reconheceu de imediato a paisagem como sendo aquela que assistiu no espelho e pensou procurar o irmão, mas deteve o olhar numa árvore que não estava lá no dia anterior. Um enorme plátano no centro de uma planície, com as folhagens verdes e o lenho ressequido a revestir o tronco. O Ivo tocou na árvore e sentiu, com a ponta dos dedos, a textura rugosa e as falhas no revestimento e nós da árvore. Arrancou um pedaço da casca e observou-o: o recorte irregular apresenta fissuras como os poros da pele de um animal e é constituído de varias camadas; por dentro, o pedaço de casca é mais rugoso e as fissuras transversais mais visíveis. O Ivo afasta-se três passos da árvore e observa-a por inteiro, fecha os olhos, agarrando o pedaço da árvore na mão, com força, e sente o cheiro que ela emana, é cheiro de uma natureza que aquele mundo desconhecia. Num gemido de misto de frio e quente o Ivo acorda no seu beliche com a mão direita dormente. Levanta-se num pulo, ainda zonzo, e à luz da vela abre a mão. Ele trouxera consigo o pedaço de casca do plátano. Aqueles sonhos não são apenas sonhos, são reais.