sexta-feira, 30 de abril de 2010

Uma ideia, Um livro, "Um Sonho"


Esta é uma compilação dos vários textos já aqui editados. Uma estória acerca de um rapaz, na busca pela paz e pela alma do falecido irmão. Uma jornada de episódios que pertencem a um mundo do fantástico, com aventuras, dilemas e amizade.
Leiam, critiquem, comentem, opinem, e mais importante ainda: transmitam NOVAS IDEIAS!
Obrigado a todos, espero que gostem.




“Até quando, ó verdadeiro e santo
Dominador,
não julgas e vingas o nosso sangue
dos que habitam sobre a
terra?”

Apocalipse Segundo S. João
Capitulo 6, 10.º Paragrafo


Introdução ao Capítulo I

- De que cor é um espelho?
- Não sei… Metálico?
- Não, preto.
- Como pode ser preto se eu me vejo nele?
- Isso é apenas aquilo que tu esperas encontrar nele.
- Mas como é que sabes que ele é preto? – pergunta o rapaz, já desesperado com a voz na sua cabeça.
- Eu sou um. – diz o espelho, mexendo a própria figura do rapaz para falar.
Ele olha-se no espelho fixamente focando a sua concentração em toda a sua cópia. Começa a ficar tudo negro em redor da sua imagem reflectida, até que a própria é engolida pela escuridão. É como estar cego a cair num vazio profundo, até que acorda no outro mundo, no seu mundo.

Destruição…
À sua volta está um mundo rarefeito na escuridão da noite. Ainda são visíveis edifícios de um mundo, em tempos desenvolvido. Agora não passam de um monte de pedras abandonadas à sedimentação. O mar, conhecido pelo seu temperamento bravio, está completamente parado, e não existe areia, mas sim terra com fissuras provocadas pelo calor e a seca.
Conforme ele caminha descobre vegetação, muito pouca, até que por detrás de uma colina algo o espanta imenso, um ninho com um único ovo do seu tamanho. A vegetação condensa-se à volta do ninho como se do ovo dependesse. Este irradia uma luz e calor intensos.
- Toca-lhe.
- Não devo! – diz o rapaz, assustado.
- É o teu destino.
- O destino… Eu não acredito no destino.

- (Tenho muita pena, o destino quis que ele morresse…) - Lembro estas palavras com agonia. – segue-se um monologo de revolta - O destino, Deus ou as pessoas? Quem comanda? Eu sou dono de mim, deste mundo em que estou! – a irritação misturam-se com paixão na sua voz em clamor – Eu criei o Meu Mundo para poder ser eu a comandar-me! Quem és tu?

- O teu mundo… Parece que já não é só teu. – a voz é emanada de um espectro quase invisível poucos centímetros ao lado dele. – Agora, toca-lhe, aceita a oferta de lutares pelos teus ideais e pelo teu mundo.

Ele aproximou-se do ovo. À medida que se aproxima sente-se cada vez mais atraído.
- (Que oferta é esta que me vai permitir lutar? Estou já a milímetros de lhe tocar…)


I

- (Irmão, quantas vezes brincámos junto ao lago do Parque de Monserrate? Chapinhávamos na água enlameada e corríamos atrás dos patos assustados. Fugíamos um do outro pelo meio da floresta e corríamos, corríamos sem parar por entre as arvores. Crescemos. Entramos na juventude e nada mais nos interessava do que continuarmos a correr pelo meio da floresta. Depois tombava-mos, ofegantes, na relva, com as sombras das nuvens a arrastarem-se pelas nossas caras).
- Em que pensas? – Pergunta a Nisa, enquanto observa as expressões de alegria no rosto do Ivo.
- No meu irmão. Nas vezes que brincávamos neste parque e acabávamos deitados na relva, sem dizer nada, como nós o fazemos agora.
O Ivo tem 21 anos. O seu cabelo preto, como um universo apagado, contrasta com os seus enormes olhos azuis, que demonstram uma tristeza eminente. As orelhas são pequenas tal como o seu nariz, e a boca entreaberta revela caninos aguçados como de uma fera voraz.
- Se o Salvador ainda fosse vivo faria hoje 20 anos. Ele sempre me dizia que queria fazer algo importante ao tornar-se adulto. É uma idade especial.
- Sabes se há alguma coisa que ele quisesse fazer?
- Haviam algumas coisas…-diz o Ivo sentando-se de pernas cruzadas - Para alem da sua típica utopia em querer tornar o mundo melhor, - o Ivo esboça um sorriso – ele queria ver o por do sol com os amigos.
Após uns breves segundos Nisa ergue-se do campo relvado e puxa pela mão do Ivo.
- Vamos.
- Vamos onde?
- Jantar e depois vamos ver o por do sol em honra do Salvador. Que achas?
- Acho que o meu irmão gostaria muito.

O jantar foi invulgarmente silencioso. O restaurante chinês tinha poucos clientes e o Ivo optou por tentar não pensar nem falar em nada que evidenciasse alguma fraqueza. Muitos sentimentos corriam-lhe na pele: as recordações do irmão e a forma como eram unidos e felizes, as brincadeiras, as cumplicidades, os desabafos, as lágrimas partilhadas, as dúvidas, os desejos e, por fim, o eco da voz do médico dizendo-lhe que o destino quis que ele morresse.
O sabor uniforme e meloso do pato com ananás deixa-o nauseado.
- Tenho que ir à casa de banho.
- Já percebi que não estas bem Ivo. Eu vou pagar e espero por ti lá fora; precisas apanhar ar fresco…
O Ivo levanta-se e dirige-se para a casa de banho. Abre a torneira do lavatório e molha a cara com água fria tentando afastar e lavar os sentimentos negativos que lhe surgem. Uma voz vinda da sua dianteira quebra o carpido da água.
- Eu estou aqui.
Com um enorme susto, o Ivo salta para trás. Sente o coração na garganta e a intensidade deste a bater provoca-lhe dores agudas nas têmporas. O tempo parecia ter sustido a respiração enquanto ele olhava em frente, com as pequenas gotas de água projectadas, a deslocarem-se no ar, refractando a luz. Em frente do Ivo, no espelho, reside o rosto albino do seu irmão que de imediato desaparece dando lugar às imagens sobrepostas da casa de banho e do Ivo com a imagem de um mundo ressequido e estagnado. Nisto, o espelho estala em todo o seu comprimento reflectindo apenas o que o mundo palpável lhe fornece e a imagem, agora desassociada, do Ivo.

À porta do restaurante, Nisa puxa do maço da Marlboro e acende um cigarro. Os seus pensamentos flutuam na preocupação que sente no crescente estado depressivo do Ivo nos últimos três anos. Embora os resultados na faculdade fossem bastante bons, a propensão que o Ivo tinha para falar diminuía e em contrapartida acumulavam-se sentimentos que tinham de ser expelidos de alguma forma.
- Tenho que fazer algo… - murmurou. – Tenho que falar com ele, tenho que o ajudar…
Interrompendo a reflexão da Nisa, o Ivo sai do restaurante, tropeçando à porta, agarrando-se à amiga a chorar.
- Oh Ivo! – segue-se uma breve pausa em que ela se apercebe do nervosismo do Ivo e o abraça. - Chora… Chora à vontade.
Ele preferiu não contar nada do que se passou. Na verdade já nada no mundo lhe parece real. A solidão que sente e as saudades do irmão não são as únicas coisas que o incomodam, mas também é o medo de estar a perder o controlo e de estar a enlouquecer.
- Vamos… - diz ele a soluçar. – Vamos para a praia do Magoito.




*

Os estalidos da velha carroçaria do Fiat descapotável não interferiam de todo com as encantadoras paisagens de Sintra. O Ivo observa com atenção a todos os pormenores: as casas e os canteiros de Fontanelas, os pequenos quadrados de palha espalhados aleatoriamente nas extensas searas e campos, as andorinhas a esvoaçar como pedaços de cartão recortado à deriva… O cheiro a mar já se adivinha no Arneiro dos Marinheiros e, ao fechar os olhos, e ao sentir o vento salgado agitar o cabelo, envolver-lhe a face e preencher os pulmões, Ivo sente uma liberdade inexplicável que o arrepia até à espinha. Abre os olhos e o Sol, de um tom alaranjado, deslumbra-o. Fechando novamente os olhos e sente o calor do Sol acariciar-lhe a face como a mãe dos irmãos fazia quando chegava a hora de adormecer. Ela aconchegava a roupa da cama aos dois filhos, dava-lhes festinhas, com as suas suaves mãos, nas faces rechonchudas e coradas e um beijo de boa noite.
- Chegámos. – Nisa pára o carro no estacionamento vazio, - Estás com melhor cara Ivo. – Sorrindo, puxa do travão de mão e prepara-se para sair do carro.
Junto ao pequeno muro vislumbram a praia. A maré baixa revelou as rochas alisadas pela areia e uma neblina pouco densa percorre a praia parecendo querer escalar os rochedos que delimitam e se estendem ao longo da praia.
Segurando as mãos de Nisa, o Ivo olha-lhe nos olhos: - Obrigado. Tens-me apoiado sempre e sem ti talvez não tivesse força para suportar esta perda. – Conforme a Nisa se prepara para falar o Ivo interrompe-a. – Sim, eu sei o que vais dizer. Eu agradeço-te por sentir necessidade de o fazer, sei que fazes isto por mim sem esperar um agradecimento.
- Os amigos são para isso mesmo, para os momentos bons e para os maus.
Os dois descem a rampa até a areia e seguem em direcção a uma rocha onde se sentam a observar a brilhante ondulação do mar e um horizonte pintado de cores quentes e alegres.
Ao pôr-se, o Sol espalha os seus últimos raios de luz laranja, rosa, e amarelo pelo horizonte, e já quase fora do alcance da vista, a suave luz começa a enfraquecer, vencida pelo frio da brisa marítima. Agora o céu azul e amarelo contrasta com a escurecida ondulação do mar, como uma luta entre dois reinos.
- (Salvador. Tu estas aqui.) – pensa o Ivo colocando a mão no peito.

*

O Ivo já chega tarde a casa e limita-se a cumprimentar a mãe, lavar os dentes e a recolher-se no quarto. Ao entrar ele observa-o como se não o conhecesse pois tinha-o alterado de forma a não se confrontar com os sentimentos negativos em relação à perda do irmão, com quem dividia o espaço. À entrada do quarto volta-se para a direita e olha para o beliche. A cama de cima está desfeita pois o Ivo acordou subitamente na última noite e só pensou em sair de casa depois do sonho que teve. Voltando-se desta vez para a esquerda, atravessa o centro do quarto passando pelo tapete redondo, azul-escuro chegando à janela. Fecha o estore. Um espelho pouco mais baixo que ele está à esquerda da janela e reflecte o tapete azul com três “pufs” que o circundam, e, mais adiante, o beliche e a cómoda que está encostada à parede da porta de entrada. À direita da janela, a secretária sustenta os pesados livros de leitura recomendada pelas disciplinas do seu curso universitário e um portátil aberto. Na estante, ao lado da secretária, estão expostos alguns objectos: um troféu de patinagem, um carro vermelho telecomandado, um globo terrestre de vidro fosco assente numa base de madeira talhada, livros antigos, ...

Sentando-se no centro do quarto, ele pensa na mãe e no sofrimento que ela tem passado ao longo da vida. Um marido ausente, que era um viciado no trabalho, acabando por desprezar a família trocando-a por um projecto numa empresa de engenharia na Rússia. Um dia em conversa sobre o que levou o pai a sair da vida deles, a mãe falou do projecto, envolvida em expressões de orgulho pelo sucesso do seu marido, e angustia pelo o que veio a acontecer: “o projecto é muito importante e secreto!” – dizia ela. Com o abandono, acabada de dar à luz o seu segundo filho, ela ficou de rastos. Felizmente nunca lhes faltou nada excepto um pai, e, mais tarde, uma maior tragédia se abate de uma forma cruel sobre esta família: a morte de um dos filhos. Ela nunca mais seria a mesma. Os olhos perderam o brilhozinho azul e a cara alegre; tornou-se pálida e sem expressão.
Nos aniversários do Salvador ela cinge-se a comprimidos para dormir de modo a não pensar muito no que lhe faz sofrer.

O cansaço começando a pesar nos olhos do Ivo faz com que ele se dispa para ir dormir. Nu, em frente ao espelho do quarto, pergunta-se qual a sua função no mundo. Sem um pai que o apoiasse durante a sua evolução, aprendeu a defender-se por si próprio. Auto-construiu-se, mas esqueceu os seus objectivos. O irmão, Salvador, tinha uma grande esperança: mudar o mundo.
- (Sempre que me lembro disto sorrio.) – pensa o Ivo, - (talvez seja uma ideia que me agrade. Talvez seja isso mesmo que eu quero. Quero ser útil. Quero lutar por um mundo melhor.).
Já com o pijama vestido, acende uma vela branca e pousa-a na cómoda antes de se deitar.
- (Dizias que uma luz na escuridão orienta os sentimentos das pessoas, mano. Esta vela é para guiar-te para aqui, o teu lar). E com este pensamento adormece.
Ao adormecer passam-lhe diversos episódios do passado pela cabeça. O pai que abandonou a família a troco dos negócios, não havia um mês que o salvador tinha nascido; a mãe a levá-los para brincar no “Parque da Liberdade” quando ainda eram crianças; os exames médicos ao Salvador devido à sua invulgar inteligência e à dificuldade em acordar do sono; o ataque que o salvador teve na escola que o levou a ser internado no hospital e, por fim, os médicos a tentarem reanimá-lo depois de outro ataque mais efusivo, enquanto o Ivo assistia, impotente, do outro lado de um enorme vidro.O Ivo abre os olhos com o consciente a despertar. Mas não acordou. Ele está no mundo onde tem passado as últimas noites e que viu no espelho do restaurante. Reconheceu de imediato a paisagem como sendo aquela que assistiu no espelho e pensou procurar o irmão, mas deteve o olhar numa árvore que não estava lá no dia anterior. Um enorme plátano no centro de uma planície, com as folhagens verdes e o lenho ressequido a revestir o tronco. O Ivo tocou na árvore e sentiu, com a ponta dos dedos, a textura rugosa e as falhas no revestimento e nós da árvore. Arrancou um pedaço da casca e observou-o: o recorte irregular apresenta fissuras como os poros da pele de um animal e é constituído de varias camadas; por dentro, o pedaço de casca é mais rugoso e as fissuras transversais mais visíveis. O Ivo afasta-se três passos da árvore e observa-a por inteiro, fecha os olhos, agarrando o pedaço da árvore na mão, com força, e sente o cheiro que ela emana, é cheiro de uma natureza que aquele mundo desconhecia. Num gemido de misto de frio e quente o Ivo acorda no seu beliche com a mão direita dormente. Levanta-se num pulo, ainda zonzo, e à luz da vela abre a mão. Ele trouxera consigo o pedaço de casca do plátano. Aqueles sonhos não são apenas sonhos, são reais.

Introdução ao Capítulo II

«Each Atom
Sings to me
“Set me Free
From chains of the physical”»
Steve Conte, The Garden Of Everything

Caindo, caindo, caindo…
Mergulhando na escuridão; as sensações de frio e calor a lamberem a pele como estreitas correntes.
Ao abrir os olhos, o mundo das possibilidades apresenta-se a ele. O Plátano viçoso continua exactamente igual e ao seu lado uma pedra, grande e lisa, aparenta estar colocada de forma a convidá-lo a sentar-se.
Ele senta-se e sente o cheiro húmido da terra.
(- Se tudo isto é real e, se a realidade é o mundo em que vivo acordado, como pode ser possível que estas duas realidades vivam em comunhão? Só eu vejo, sinto e estou neste mundo, e, nele o Salvador, meu irmão. Temos uma ligação tão forte que a própria morte não quebrou.)
O ritmo do coração, acelerado pelo pensamento que ele teve do seu irmão e de que este poderia estar por perto, obrigou-o a concentrar-se na textura da arvore, nas sensações de dureza da pedra e nos pequeninos tufos de erva verdejante que brotavam junto ao tronco da arvore.
(- Se o sonho que tenho agora é real, se o vejo intersectado com o mundo em que acordo, então mais pessoas poderão vê-lo. Porque não tentar mostrar-lhes?)
Levantando-se, leva as mãos ao cabelo e apanha-o, ficando apenas duas madeixas soltas a meia face.
(- Se tudo isto é um sonho, então este será o mundo em que tudo é possível.).
"Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como uma bola colorida
entre as mãos de uma criança."
António Gedeão, A Pedra Filosofal



II

Três dias passaram.
Tal como um recém nascido, o Ivo sentia uma enorme necessidade de se manter a dormir e a estar no mundo que agora ganha vida, aos pedacinhos, como uma mente a tomar consciência da sua própria existência. Com o passar do primeiro dia, ele descobriu que as suas roupas naquele mundo mudavam para um estilo completamente diferente do que ele costumava vestir. Trata-se de um estilo com que ele mais intimamente se identifica, desportivo, arrogante, em tons de preto e vermelho. O seu cabelo preto e comprido também tinha tendência a ajustar-se ao seu estilo. Porem, ele não conseguiu transportar mais nada desse mundo para a realidade.
O mundo, a que o Ivo resolveu chamar de Gaia, já que este planeta proporcionava por ele próprio vida, havia sofrido mutações. O tempo parecia correr exponencialmente e a planície do Plátano era agora um pequeno monte extensamente relvado e com uns pequenos molhos de flores espalhadas ao acaso. O Ivo deita-se de braços abertos no relvado irregular à sombra do Plátano. Em Gaia, dias correspondem a horas na Terra, o que deu oportunidade ao Ivo de pensar em como iria explicar à Nisa o que de tão fantástico e estranho lhe tem acontecido.
À noite, pequenos pirilampos agrupam-se e afastam-se, como que dançando ao som de uma melodia exclusiva daquele mundo estranho e mágico, e isso enchia os olhos azuis do Ivo de uma constante admiração e deslumbramento pela natureza, pela sua riqueza e alegria que lhe davam.
Mas chega a hora de acordar, chega a hora de enfrentar uma realidade unilateral, massacrada pelo Homem, mas também chega a hora de partilhar o seu intimo com alguém.

O Ivo acorda, são 11 horas da manhã. Ao ligar o telemóvel pela primeira vez em três dias, recebe algumas mensagens da Nisa. Ela estava preocupada.

“Ivo, não me dizes nada porquê? Fui a tua casa e falei com a tua mãe. Ela diz que agora só dormes e só acordas para comer. O que se passa? Fala comigo! Estou preocupada! Beijinhos, que tudo esteja bem. Nisa”


Ele sente a barriga encolher-se. Nunca tinha ficado tanto tempo sem lhe dizer nada e ele sabia que a preocupação dela é genuína e que deveria estar a passar um mau bocado por causa dele. O remorso da sua irresponsabilidade quase que o desmotiva a falar das novidades, mas ele precisa de partilhar um pouco de tamanha alegria.
– (…ou loucura…) – pensa ele, sorrindo.

– Estou?
– Sou eu Nisa.
– Ivo! Seu parvalhão! Não me dizes nada há tanto tempo porquê? Onde estas?
– Desculpa. – Responde ele sorrindo, – Estou em casa e tu?
– Estou em Seteais, com os irmãos Dimas. Eu já te havia falado deles, chegaram do Taiti à dois dias.
– Ah… Falaste? Ok…
– Nunca te lembras de metade do que eu te digo… És impossível! – Repreende ela em tom de brincadeira, – Vem ter connosco! Eles são afáveis e temos tido conversas muito interessantes. Alem disso depois teremos tempo para falar a sós. Agora precisas de apanhar ar!
– OK! Vou tomar um duche e comer qualquer coisa…
– Até já… Beijinhos Ivo.
– Beijos.
*
– Não te esqueças da chave!
– Não, mãe, obrigado!
O Ivo pega na chave para sair e repara que a porta do armário está entreaberta. Ao abrir caem-lhe aos pés os seus antigos patins e respectivo conjunto de protecção (capacete, cotoveleiras, joelheiras e protectores de pulso) da RollerBlade.
– Será que ainda me lembro de todas as manobras?

Pela estrada e pelos passeios; os pombos fugiam assustados à velocidade e destreza com que Ivo se conduzia por entre as árvores da Correnteza. A velocidade, associada à precisão de um desporto que sempre o libertou de tudo, fazem-no sentir que é livre e que pode voar. Passa a Volta do Duche e a Fonte Mourisca a grande velocidade pela estrada alcatroada e no centro da Vila desvia-se astutamente dos estrangeiros, despreocupados e alheios às manobras evasivas do Ivo.
Quase a voar passa pelo hotel Lawrence's, pela pequena cascata e pela Quinta da Regaleira, onde teve que subir, numa fracção de segundos, um banco de madeira, para se poder desviar de um grupo de crianças em visita de estudo. Por fim apanha boleia dos engraçados carros turísticos que se assemelham a pequenos comboios cujos vidros estão estampados com motivos florais, e sobe a inclinada estrada até à entrada do palácio.
Os portões do palácio estão, como sempre, abertos. São os portões que o transportam para uma realidade diferente, talvez quase tão perfeita como em Gaia.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

For All Of Us

O passado faz parte de nós, e nós do presente e do futuro.
Que se projecte o meu passado no futuro, e que este blog seja "desenterrado".

Lento, lentinho... Continuará esta estória...

Obrigado a todos.
Vasco A. F. Ribeiro